Grafite e Muralismo em SP: Mulheres Transformam o Centro com Arte e Mensagens de Resistência

O Centro de São Paulo como Tela de Expressão Feminina

As paisagens urbanas do centro de São Paulo ganham novas cores e significados com a crescente presença de mulheres no grafite e muralismo. Obras que antes eram dominadas por uma perspectiva masculina agora exibem mensagens poderosas como “nenhuma mulher sem casa” e “resistir e ser livre”, marcando a forte atuação feminina na arte urbana da cidade.

Priscila Barbosa e a Conexão com o Edifício Elza Soares

A artista Priscila Barbosa, que iniciou sua jornada na arte urbana em 2018, destaca sua conexão especial com o edifício Elza Soares, no bairro de Campos Elíseos. O local, que abriga um projeto de moradia popular originado de uma ocupação, foi rebatizado em homenagem à icônica cantora, que, assim como Mané Garrincha, enfrentou o racismo ao ser barrada de entrar em um antigo hotel no mesmo espaço. “Eu tenho uma conexão muito grande com o centro, mas especificamente com esse edifício”, relata Priscila, ressaltando a luta das famílias para a conquista do residencial.

Priscila também aborda os desafios do machismo no universo da arte urbana, onde, por vezes, o reconhecimento de seu trabalho é direcionado ao seu companheiro, mesmo quando ele atua apenas como assistente. “Muitas vezes trabalho sozinha e outras vezes trabalho com meu companheiro fazendo assistência. E quando a gente tá trabalhando junto, as pessoas que passam para elogiar, elogiam o meu companheiro. Às vezes ele fala: ‘Esse trabalho não é meu, eu estou fazendo assistência para ela’, e a pessoa simplesmente me ignora”, desabafa a artista, cujas obras também podem ser vistas na Ocupação 9 de Julho e no Hotel Selina Aurora.

Marie Balbinot e a Importância da Ocupação de Espaços

Para Marie Balbinot, que atua na arte urbana desde 2010, o centro de São Paulo simboliza um espaço de protagonismo, historicamente reservado aos homens. Ela defende que a ocupação desses locais por mulheres é crucial para desconstruir estruturas sociais e promover a representatividade. “Quando eu vejo que uma mulher ocupou o centro ou um espaço de poder, de protagonismo, automaticamente — eu acho que até inconscientemente — eu penso que eu também posso, porque eu me vejo representada ali”, reflete Marie.

Um exemplo dessa força coletiva é o mural de quase 250 metros na Avenida Ipiranga, criado pela união de quatro artistas mulheres. O painel, que reúne diversas poéticas e personagens, é um marco de resistência contra a rivalidade feminina imposta pela sociedade. “Isso é um grito de que estamos aqui, a gente resiste, a gente existe. A gente não vai se calar porque é uma arte forte, que traz quatro poéticas distintas. E mulheres que se uniram, isso já é muito grandioso, porque o tempo todo o patriarcado e a sociedade tentam separar a gente”, afirma Marie, destacando o impacto gerado em outras mulheres que se identificam com a obra.

Homenagens e Celebrações na Arte Urbana Paulistana

A arte urbana paulistana também tem sido palco de homenagens a mulheres notáveis. Em março de 2025, Gi Favetta finalizou um mural de 360 metros quadrados na Rua da Consolação em tributo à atriz Fernanda Torres, celebrando sua indicação ao Oscar e sua herança artística. Outra obra imponente, intitulada “O Navegar de Nise”, na Avenida Duque de Caxias, celebra a psiquiatra Nise da Silveira, pioneira na revolução da saúde mental no Brasil através do afeto e da arte. A obra, de autoria da artista Ursa, retrata Nise cercada por elementos artísticos e uma de suas frases marcantes: “Gente curada demais é chata. Todo mundo tem um pouco de loucura”.

Desafios e Oportunidades na Lei da Cidade Limpa

A Lei da Cidade Limpa da Prefeitura de São Paulo impõe restrições à arte urbana, proibindo grafites em empenas cegas sem janelas. Dessa forma, a maioria das pinturas é realizada por meio de festivais ou pelo edital Museu de Arte de Rua (Mar). Criado em 2017, o Mar busca fortalecer e reconhecer as artes urbanas na cidade, atuando em parceria com o poder público e através de editais que selecionam propostas nas categorias “Solo” e “Altura”.

Fonte: www.brasildefato.com.br

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