Ditadura Empresarial-Militar no Brasil: Como Empresas Colaboraram com a Repressão e Violações de Direitos

A Ditadura sob nova perspectiva

O filme ‘O Agente Secreto’, do diretor Kleber Mendonça Filho, que concorre ao Oscar, lança luz sobre um aspecto sombrio da ditadura militar brasileira: a colaboração de empresas com o regime. Longe de focar apenas na repressão estatal direta, a obra mergulha na intrincada teia de interesses que ligavam o poder econômico ao aparelho repressor.

A trama acompanha Armando, um pesquisador da UFPE interpretado por Wagner Moura, que se torna alvo de um empresário ligado à Eletrobras. Este enredo ficcionalizado, mas com fortes ecos da realidade, ilustra o conceito de “ditadura empresarial-militar”, termo cunhado por estudiosos para descrever um período em que diversas empresas não só se beneficiaram do regime, mas ativamente contribuíram para a violação de direitos de trabalhadores, camponeses e populações tradicionais.

Tentáculos empresariais na repressão

As evidências históricas apontam para uma atuação sistemática e multifacetada das empresas durante a ditadura. Essas ações se estenderam por todo o país e envolveram desde a repressão a movimentos sindicais, em aliança com forças policiais, até o fornecimento de infraestrutura para atividades de espionagem e a montagem de centros de prisão e tortura.

Pesquisas, como a coordenada por Edson Teles, professor da Unifesp, investigaram o envolvimento de 13 empresas em graves violações de direitos. Teles ressalta que, durante a redemocratização, a narrativa focou excessivamente na luta armada, apagando o papel de muitos atores econômicos e dificultando processos de responsabilização.

No filme, a perseguição a Armando não é motivada apenas por razões políticas, mas também por interesses comerciais. O empresário Henrique Castro Ghirotti, figura central na trama, busca desmantelar o departamento de pesquisa de Armando na UFPE para proteger seus negócios com a Eletrobras, especialmente em projetos de energia.

Desmandos sem farda e a “porta giratória”

A figura do empresário Ghirotti, que age com autoridade mesmo sem uniforme militar, simboliza a “porta giratória” da ditadura. Esse termo descreve a circulação de poderosos entre o Estado, o setor privado e empresas públicas, evidenciando a profunda imbricação entre esses setores. Pedro Campos, professor da UFRRJ, destaca que o poder empresarial se elevou a ponto de permitir ações arbitrárias, tornando difícil distinguir onde terminava o governo e onde começava a empresa.

A perseguição a Armando, com motivações que mesclam preconceito e interesses econômicos, culmina na contratação de matadores de aluguel, uma prática que, segundo Campos, era utilizada para eliminar opositores políticos e econômicos.

A história suja do setor de energia

O setor de energia, em particular a Petrobras, foi palco de perseguições desde o início do regime. Socióloga Luci Praun, da Unifesp, liderou uma investigação que revelou como petroleiros organizados politicamente se tornaram alvos de monitoramento, demissões e tortura. A própria direção da empresa, sob comando militar, teria colaborado ativamente com a repressão, com indícios de centros de tortura em refinarias e o uso de navios como prisões flutuantes.

Além da repressão política, a Petrobras é investigada por subnotificação de acidentes de trabalho, violação da liberdade sindical, exploração de terras indígenas e danos ambientais. Em nota, a empresa lamentou os episódios e afirmou buscar refletir sobre o passado com responsabilidade, citando a implementação de comitês de direitos humanos e códigos de ética.

Reparação e a busca por não repetição

Em outros casos, como o da Itaipu Binacional, houve o reconhecimento oficial de danos e violações de direitos humanos contra a população indígena Avá-Guarani durante a construção da usina. O procurador Marlon Alberto Weichert, do MPF, coordena inquéritos que buscam a responsabilização de empresas como forma de justiça de transição tardia e para evitar a repetição de tais atos.

A mensagem é clara: a atividade empresarial carrega a responsabilidade pela preservação dos direitos humanos. Colaborar com regimes autoritários, seja por ideologia ou interesse econômico, pode ter consequências futuras para as empresas. Armando, o protagonista de “O Agente Secreto”, representa a massa de perseguidos cujas vidas foram impactadas pelos tentáculos da ditadura no mundo empresarial, um lembrete de que muitos brasileiros, como ele, apenas tentavam seguir vivos e fiéis aos seus valores.

Fonte: www.brasildefato.com.br

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