Mara da Ponte: A Liderança Feminina Que Fortalece Quilombos no Recôncavo Baiano Contra a Violência e em Defesa do Território

A Luta por Reconhecimento e Autonomia

O reconhecimento legal de territórios quilombolas, como o Engenho da Ponte na Bahia, é uma conquista do movimento negro que garante não apenas a posse da terra, mas também a preservação da identidade e cultura afro-brasileira. No Recôncavo baiano, comunidades como Kaonge, Dendê e o próprio Engenho da Ponte lutam pela titularização de suas terras, um processo fundamental para a garantia de direitos coletivos. Nesse cenário, mulheres como Mara da Ponte emergem como pilares na organização e defesa desses territórios.

Mara da Ponte: Raízes, Liderança e o Legado do Cuidado

Maria da Conceição Abade da Silva Confessor, a Mara da Ponte, carrega em sua trajetória a herança de mulheres fortes. Guiada pela ancestralidade, como sua avó parteira e rezadeira, e sua mãe, Mara desenvolveu um dom natural para o cuidado, inicialmente com recém-nascidos e suas mães, um legado das práticas tradicionais quilombolas. Esse cuidado, que ela descreve como revitalizante para si mesma, estende-se à defesa incansável do território e da cultura quilombola, sempre em articulação com outras mulheres.

A Força Coletiva Feminina: Da Associação ao Coletivo de Mulheres Negras

Mara foi presidente da primeira Associação da Comunidade Quilombola de Engenho da Ponte em 2003. Contudo, a pouca representatividade feminina e a desconsideração de suas vozes levaram, em 2009, à fundação da Articulação de Mulheres Negras no Quilombo Engenho da Ponte. O coletivo, que hoje conta com 112 mulheres de diversas comunidades e municípios, expandiu seu alcance e mudou o nome para Articulação de Mulheres Negras no Quilombo Engenho da Ponte, abraçando a diversidade feminina de outras regiões. Essa articulação tem sido crucial para o fortalecimento da autonomia econômica e política das mulheres camponesas, agricultoras e marisqueiras, com uma participação feminina expressiva em todas as esferas organizacionais.

Território, Liberdade e a Resiliência Frente às Mudanças Climáticas

Para Mara, o território quilombola é sinônimo de vida, liberdade e existência. A dinâmica produtiva das comunidades, baseada na agroecologia e no respeito ao tempo da natureza, garante uma economia diversa e resiliente. No entanto, as mudanças climáticas e os impactos ambientais de empreendimentos ameaçam esse equilíbrio, com a perda de espécies de peixes e mariscos e o surgimento de novas pragas. Mara expressa sua preocupação com o futuro das comunidades caso esses recursos naturais desapareçam, alertando para um crime ambiental que afeta diretamente a subsistência e a cultura quilombola.

Violência de Gênero e a Luta por Justiça

A violência de gênero é uma realidade que atinge as mulheres quilombolas de forma intensificada, entrelaçada a questões raciais e conflitos fundiários. O feminicídio é a segunda principal causa de assassinatos contra quilombolas, evidenciando a brutalidade patriarcal. O caso de Tainara dos Santos, desaparecida e vítima de feminicídio, mesmo sob medida protetiva, revela a falha do Estado em proteger essas mulheres. A força e o amparo, muitas vezes, vêm das próprias articulações, que buscam construir caminhos de resistência, fortalecendo a autoestima, a autonomia econômica e a afirmação da força feminina em seus territórios, em um país com uma dívida histórica com as mulheres negras.

Fonte: www.brasildefato.com.br

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *