Recuo de Trump sobre pedágio em Ormuz: Sinal de impasse na guerra com o Irã e dificuldade para um acordo duradouro

Guerra de Desgaste no Oriente Médio

A recente e abrupta mudança de posição do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação à cobrança de pedágio no Estreito de Ormuz marca mais um capítulo de um conflito prolongado com o Irã que já se estende por mais de quatro meses. Apesar de um “memorando de entendimento” ter sido firmado há cerca de um mês, com o objetivo de estabelecer um cessar-fogo temporário e servir de base para negociações, a resolução do conflito parece distante.

A proposta inicial de Trump de impor uma taxa de 20% sobre a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz, uma ideia não totalmente nova, foi abandonada no dia seguinte. O presidente americano declarou que buscaria “acordos comerciais e de investimento” com aliados no Golfo, sugerindo a oferta de passagem segura em troca dessas negociações. Essa reviravolta evidencia a dificuldade de encontrar um caminho claro para encerrar a crise.

Desafios Políticos e Militares

Analistas apontam que Trump pode estar relutante em escalar a guerra devido à impopularidade do conflito, ao risco de aumento nos preços de energia e à possibilidade de novas retaliações iranianas contra forças americanas e aliadas. Contudo, o presidente também pode considerar pouco atraente a ideia de encerrar o conflito sem um acordo que possa ser apresentado como superior ao firmado pela administração de Barack Obama em 2015.

“Acho que o desfecho mais provável é um não desfecho”, afirma Rosemary Kelanic, diretora do programa para Oriente Médio da organização Defense Priorities. “Isso se transformou em uma guerra de desgaste, e guerras de desgaste tendem a durar um período muito, muito longo.”

O Fim do Memorando de Entendimento

O “memorando de entendimento” (MOU) entre Estados Unidos e Irã, que gerou expectativas de um fim para a guerra, efetivamente fracassou. Trump anunciou a retomada do bloqueio americano contra navios iranianos, acompanhada por novos ataques militares dos EUA contra alvos no Irã. Em resposta, o Irã intensificou seus ataques contra aliados americanos e navios comerciais na região, levando o tráfego pelo Estreito de Ormuz a uma paralisação quase total.

Após meses de negociações tensas, marcadas por hostilidades, Trump e o governo americano parecem enfrentar os mesmos desafios que permearam grande parte da guerra. Militarmente, os EUA alcançaram seus objetivos, reduzindo a capacidade de defesa iraniana. Politicamente, porém, o conflito permanece sem solução, com o Irã ainda capaz de bloquear o Estreito de Ormuz, uma vantagem geográfica difícil de neutralizar sem uma escalada militar drástica.

O Dilema de Trump e a Guerra de Paciência

A proposta de taxa sobre o Estreito de Ormuz, embora condenada pelo Secretário de Estado americano Marco Rubio em outro contexto, demonstra a busca por soluções alternativas. No entanto, a mudança de posição de Trump sugere uma falta de estratégia definida.

O memorando de entendimento, que ambos os lados apresentaram como uma vitória, era propositalmente vago, deixando pontos cruciais para negociações futuras. Um dos pontos centrais era o papel do Irã na supervisão do tráfego marítimo em Ormuz, com a promessa de “esforços para garantir a passagem segura de navios comerciais sem cobrança de taxas”, em troca de investimentos e o fim de sanções.

“O memorando de entendimento está completamente morto”, declara Kelanic. “Tudo o que ele previa agora foi desfeito.”

Agora, EUA e Irã retornam a uma situação familiar: o Irã enfrenta ataques militares e o corte de suas receitas de petróleo, enquanto Trump se vê diante da escolha entre a escalada militar, com seus custos políticos e econômicos internos, ou a aceitação de um regime iraniano hostil no poder.

“Estamos de volta ao ponto inicial, quando a pergunta era: quem tem mais paciência?”, questiona Elliot Abrams, pesquisador sênior de Estudos do Oriente Médio no Council on Foreign Relations. A guerra de paciência envolve a capacidade do Irã de exportar petróleo versus o consumo de petróleo do Golfo Pérsico pelos EUA e outras nações.

Impacto nos Preços de Energia e o Futuro das Negociações

A notícia da queda nos preços ao consumidor nos EUA na terça-feira foi um alívio para Trump, que temia o impacto da guerra na inflação e em sua popularidade. Uma escalada do conflito, no entanto, inevitavelmente pressionaria os preços do petróleo novamente, ameaçando essa tendência positiva antes das eleições legislativas de meio de mandato.

A capacidade de pressão de Trump sobre o Irã pode estar reduzida, pois ele já utilizou as ferramentas mais acessíveis e credíveis. Ataques a alvos militares e ligados ao regime, como a instalação de pesquisa nuclear em Kolang Gaz La, não levaram o Irã à rendição no passado.

Se novos desdobramentos levarem a um cessar-fogo e a negociações, os principais pontos de conflito – controle de Ormuz, programa nuclear iraniano e influência regional – permanecerão sem solução. A guerra, que se aproxima do quinto mês, não mostra sinais de um fim próximo, lembrando os longos conflitos que marcaram a história americana e que Trump buscou evitar.

Fonte: g1.globo.com

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