Fiat: Cinquenta anos de história e 90% de nacionalização em Betim
A Fiat, com 50 anos de presença no Brasil, representa um marco na indústria automobilística nacional. Sua fábrica em Betim (MG) emprega 19 mil pessoas, sendo mais da metade da força de trabalho da Stellantis na América do Sul, e alcança um índice de nacionalização de cerca de 90% em seus veículos. A unidade não se limita à produção, mas também desenvolve produtos, adapta plataformas e motores, além de realizar testes localmente. Atualmente, o Brasil é o principal mercado da Fiat, superando a Itália. O presidente do conselho da Stellantis, John Elkann, neto do lendário Gianni Agnelli, relembrou sua infância no país e destacou a importância estratégica de Betim, que cresceu exponencialmente desde a instalação da fábrica.
BYD em Camaçari: estratégia de mercado e promessa de nacionalização
A BYD, por outro lado, adotou uma abordagem diferente. Antes mesmo de completar sua fábrica em Camaçari (BA), a montadora chinesa já se consolidava como a quarta marca mais vendida no Brasil. A planta, instalada em um antigo terreno da Ford, emprega 5,5 mil pessoas. Inicialmente, carros como o Dolphin Mini chegam à linha de montagem com a carroceria já soldada e pintada na China, sendo as demais peças montadas no Brasil. A BYD planeja alcançar 50% de componentes nacionais até 2027, com a conclusão de suas seções de pintura, solda e prensagem de aço. A empresa anunciou um investimento de R$ 5,5 bilhões e obteve do governo federal uma cota para importar kits de peças sem impostos adicionais, uma estratégia que prioriza a construção de mercado antes da completa cadeia produtiva local.
Tensões e a influência chinesa na indústria brasileira
O avanço da BYD e a crescente presença de componentes chineses geram preocupações na concorrência. Antonio Filosa, CEO global da Stellantis, expressou a necessidade de priorizar o desenvolvimento de empresas brasileiras de aço e fornecedores locais, sugerindo que a decisão sobre o caminho a seguir cabe aos políticos. A Stellantis, por sua vez, busca incorporar a tecnologia chinesa. O grupo controla a Leapmotor, especializada em elétricos e híbridos, e negocia com a estatal Dongfeng. A produção de modelos da Leapmotor na fábrica da Stellantis em Pernambuco deve iniciar em breve, utilizando peças importadas da China, em um modelo similar ao da BYD. A estratégia da Stellantis é adaptar a tecnologia chinesa às suas fábricas, engenheiros e fornecedores já estabelecidos no Brasil.
O futuro da produção automotiva: nacionalização e tecnologia
A construção de uma cadeia produtiva nacional robusta, especialmente para veículos eletrificados, é um desafio que demanda tempo e investimento. O grau de nacionalização dos veículos no Brasil dependerá de incentivos governamentais, como a taxação de kits importados. A China estabeleceu um novo padrão de custo e tecnologia, fruto de duas décadas de política industrial. A Stellantis e a BYD, embora com estratégias opostas – a primeira incorporando tecnologia chinesa em sua estrutura existente no Brasil, e a segunda construindo sua cadeia produtiva a partir de sua base na China –, buscam o mesmo objetivo: fortalecer sua presença no mercado automotivo brasileiro. Resta saber o quanto dessa transformação industrial se consolidará efetivamente no país.
Fonte: investnews.com.br