Geraldo Gomes: O Guardião de Sementes Crioulas da Caatinga que Salva a Biodiversidade e a Cultura Sertaneja
Em Serranópolis de Minas, um agricultor de 62 anos dedica sua vida a preservar centenas de variedades de sementes, combater os agrotóxicos e manter viva a tradição musical sertaneja, enfrentando as mudanças climáticas e o avanço da monocultura.
A Roça Diversificada como Legado Familiar
Na comunidade de Touro, em Serranópolis de Minas, a casa de Geraldo Gomes, 62 anos, é um reflexo de sua vida e de suas paixões. Entre diplomas e fotos de família, potes repletos de sementes e licores artesanais contam a história de uma tradição passada de geração em geração. Nascido e criado na mesma propriedade, Geraldo aprendeu desde cedo com o pai e o avô a importância da diversidade na roça, um princípio que ele resume como “roça tem que ser igual mato, tem que ter diversas plantas”. Essa sabedoria ancestral o guiou a cultivar uma vasta gama de alimentos, como arroz, amendoim, cana, abóbora, milho, feijão, e diversas outras espécies, muitas delas esquecidas pelo agronegócio moderno.
A Casa de Sementes: Um Tesouro da Caatinga
O maior tesouro de seu Geraldo reside em sua “casa de sementes”, um espaço que abriga centenas de variedades de sementes crioulas, cuidadosamente selecionadas e armazenadas em potes, garrafas PET e cabaças. São mais de 200 tipos, incluindo mais de 70 de feijão, sementes de melancia, abóbora, algodão, fava, quiabo, maxixe, mamona, amendoim, além de espécies medicinais como mucunã, olho de boi, umburana e mulungu. De milho, a diversidade é impressionante, com variedades usadas para canjica, alimentação animal e consumo direto. Essa iniciativa, apoiada por programas como o “Uma Terra e Duas Águas” e o Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas, é fundamental para a preservação da agrobiodiversidade do semiárido mineiro.
Desafios Ambientais e a Luta Contra a Monocultura
A prática de Geraldo Gomes, vista por alguns como “roça de doido”, é um ato de resistência contra o avanço da monocultura e os impactos das mudanças climáticas. A chegada de projetos de pecuária, irrigação e monocultura de algodão na década de 1970, impulsionados pela Revolução Verde, trouxe destruição, desmatamento e contaminação dos rios com agrotóxicos. A expansão da agricultura e, principalmente, das pastagens tem levado à perda de cobertura vegetal nativa da Caatinga, que entre 1985 e 2023 perdeu 14,4% de sua área. Seu Geraldo, que adota um sistema agroflorestal (SAF), enfrenta as dificuldades de plantar sem veneno em um entorno cada vez mais contaminado, onde o uso de drones para pulverização agrava o problema.
A Música como Expressão Cultural e de Resistência
Além de guardião de sementes e agricultor agroecológico, Geraldo Gomes é um apaixonado pela música. Cantor e compositor, ele mantém viva a tradição musical sertaneja de sua família, que remonta a seus tios fundadores do grupo “Seresteiros do Luar” em 1955. Seu pai, avô e tios eram sanfoneiros, e Geraldo herdou esse dom. Hoje, ele integra o quarteto, resgatando a Folia de Reis e a cultura sertaneja. A música, assim como suas sementes, é uma forma de preservar a identidade e a memória de seu povo, mesmo diante das perdas, como o recente falecimento de um dos integrantes do grupo. O reconhecimento de seu trabalho veio em 2013, com o prêmio TRIP Transformadores, e seu sonho é transformar a casa de sementes em um museu, atraindo visitantes de todo o mundo para conhecerem a riqueza da agricultura familiar e da Caatinga.
Fonte: www.brasildefato.com.br
