A Força do Coletivo Contra a Desigualdade
No Rio Grande do Sul, mulheres negras estão transformando suas realidades e construindo um futuro mais justo e autônomo através da economia solidária. Inspiradas pelo princípio africano “eu sou porque nós somos”, iniciativas como a Rede Ubuntu e o Fórum Estadual das Mulheres Negras da Economia Popular Solidária (Fespope) emergem como poderosas ferramentas de geração de renda, empoderamento econômico e enfrentamento às desigualdades estruturais.
Gilciane Neves, integrante da coordenação do Fespope, explica que a Rede Ubuntu nasceu da necessidade de impulsionar empreendimentos coletivos, especialmente para mulheres negras, povos tradicionais e comunidades periféricas. “A Rede foi construída coletivamente como um espaço de cooperação, troca de saberes e fortalecimento econômico”, afirma. Essa articulação tem permitido o acesso a novos mercados, a visibilidade para produtos e serviços e a venda direta, eliminando intermediários e garantindo maior retorno financeiro para as trabalhadoras.
O Cenário Desafiador das Mulheres Negras no Mercado de Trabalho
Os dados revelam um cenário de profundas disparidades: mulheres negras no Brasil recebem, em média, 53% menos que homens brancos. Boletins do Dieese indicam que 24 milhões de lares são chefiados por mulheres negras, que enfrentam informalidade em 39% dos casos e perdas anuais significativas de renda, mesmo com ensino superior. Diante dessa realidade, a economia solidária se apresenta não apenas como alternativa de sobrevivência, mas como estratégia de emancipação.
A Lei nº 15.068/2024, que criou a Política Nacional de Economia Solidária, busca regulamentar e ampliar o acesso a crédito e o fomento de cooperativas e associações. Relatórios apontam que 80% das mulheres que vivem da economia solidária são as principais responsáveis pela renda familiar, e que a maioria dessas empreendedoras são negras. O Manifesto Econômico da Marcha das Mulheres Negras reforça a necessidade de fortalecer o empreendedorismo negro e expandir a economia solidária, demandando do Estado políticas de apoio com financiamento, formação e canais de comercialização.
Redes de Apoio e Autonomia Econômica
Durante a pandemia de covid-19, a Rede Ubuntu foi crucial para a manutenção da renda de muitas famílias, adaptando-se com feiras virtuais e estratégias de entrega. “Não é apenas um grupo de WhatsApp ou um espaço de venda. É um espaço de apoio emocional, formação e resistência coletiva diante das desigualdades estruturais”, ressalta Gilciane.
A autonomia econômica é vista como um caminho para a libertação. “Ter uma fonte própria de renda significa independência, poder de decisão e dignidade. A autonomia econômica nos protege de relações abusivas, fortalece nossa autoestima e amplia nosso poder de escolha”, defende Gilciane. Para ela, o empoderamento econômico é a base para qualquer forma de empoderamento.
Economia Solidária: Um Modelo de Crescimento Coletivo
A trajetória de Gilciane na economia solidária começou em 2002, na vila Cruzeiro, em Porto Alegre, como alternativa de geração de renda após o desemprego. Desde então, ela tem atuado na construção desse modelo, criando seus filhos através do trabalho autogestionado e cooperado.
Lisbete do Santos Pinheiro, artesã com mais de 35 anos de experiência e integrante da coordenação do Fespope, destaca que a economia solidária transforma a percepção sobre trabalho e empreendedorismo. “Aos poucos, a gente vai entendendo o quanto a coletividade te fortalece, o quanto cria novas oportunidades e o quanto a troca de saberes, e até de problemas e dificuldades, facilita tudo”, relata. Ela enfatiza que a economia solidária é um contraponto ao sistema tradicional, valorizando o trabalhador, o meio ambiente e a cooperação.
Desafios e a Luta por Políticas Públicas
Apesar dos avanços, mulheres negras no Rio Grande do Sul ainda enfrentam desafios como o acesso a crédito, a precariedade de políticas públicas e dificuldades de mobilidade. Projetos como o “Economia Popular Solidária com Mulheres Negras: Empoderamento e Bem Comum” buscam fortalecer o protagonismo econômico através de formações, acesso a insumos e feiras. A principal reivindicação é a continuidade dessas ações, com foco em formação permanente e espaços de venda.
Thayna Brasil, empreendedora da iniciativa Kuumba & Gestão, aponta que o empreendedorismo negro ainda é pouco valorizado e que mulheres negras raramente são as primeiras a serem atendidas por políticas públicas. O racismo estrutural é um obstáculo diário, mas a economia popular solidária surge como um modelo capaz de trazer leveza ao trabalho e fortalecer a geração de renda, promovendo a humanização do trabalho e valorizando identidades culturais e ancestrais como formas de resistência e dignidade. Para ela, a união é fundamental para que todas possam alcançar estabilidade financeira e a autonomia sobre seus próprios negócios.
Fonte: www.brasildefato.com.br
