Pai guineense relata desespero na busca por filhos vítimas de tráfico humano explorado por gangues que usam nome de empresa

Pai guineense relata desespero na busca por filhos vítimas de tráfico humano explorado por gangues que usam nome de empresa

Esquema criminoso promete trabalho no exterior, mas leva jovens a cativeiro e exploração na África Ocidental. QNET nega ligação.

A angústia de um pai guineense, Musa, em sua busca desesperada por dois filhos sequestrados por traficantes de pessoas, expõe a crueldade de um esquema criminoso que se espalha pela África Ocidental. Utilizando o nome da empresa QNET como fachada, gangues recrutam jovens com falsas promessas de emprego no exterior, levando-os ao cativeiro e à exploração.

O Pesadelo do Recrutamento Falso

Em fevereiro de 2024, a vida de Musa foi virada de cabeça para baixo quando seu filho de 22 anos e sua filha de 18, juntamente com outras cinco pessoas de sua remota aldeia na região de Faranah, na Guiné, foram atraídos por ofertas de trabalho no exterior. Prometendo oportunidades em países como Estados Unidos, Canadá e Dubai, os recrutadores, que se apresentavam como agentes da QNET, exigiram grandes somas de dinheiro para cobrir supostos custos administrativos. Após o pagamento, os jovens foram levados para Serra Leoa, onde foram mantidos em cativeiro.

“Meu coração está destruído”, lamenta Musa à BBC News África. “Não consigo parar de chorar. Se você olhar nos meus olhos, pode ver a dor.” A situação é agravada por um áudio em que um dos filhos suplica por ajuda ao pai, um som que Musa descreve como insuportável.

A Operação de Resgate e a Rede QNET

O caso de Musa chegou à Interpol na Guiné, que acionou sua unidade em Serra Leoa. Em agosto do ano passado, Musa viajou para Makeni, no centro de Serra Leoa, na esperança de reencontrar seus filhos. A Interpol, com a colaboração da polícia local, realizou batidas em imóveis onde centenas de jovens, a maioria da Guiné, eram mantidos. Em uma dessas operações, a polícia encontrou entre 10 a 15 pessoas dormindo por quarto, incluindo adolescentes de apenas 14 anos.

Embora os filhos de Musa não estivessem no local da batida, um jovem relatou que eles haviam estado ali na semana anterior, um fio de esperança para o pai. A QNET, empresa de Hong Kong que vende produtos de bem-estar e estilo de vida, afirma que seu modelo de negócio é legítimo e que lançou campanhas regionais com o slogan “QNET contra os golpes” para alertar sobre criminosos que se passam por seus recrutadores. A empresa rejeita veementemente qualquer ligação com o tráfico de pessoas.

O Ciclo de Exploração e a Dificuldade de Justiça

O relato de Aminata, uma jovem de 23 anos de Serra Leoa, revela outra faceta sombria do tráfico. Apresentada como representante da QNET, ela foi convencida a pagar US$ 1 mil para um curso preparatório antes de um suposto voo para os Estados Unidos. Sem o trabalho prometido, Aminata foi forçada a “vender seu corpo” para sobreviver e pressionada a recrutar familiares e amigos. Ela relata que os traficantes forneciam roupas e passaportes falsos para que ela enviasse fotos aos seus entes queridos, simulando estar no exterior.

Apesar das centenas de vítimas resgatadas em operações policiais, a justiça é um desafio. As autoridades da região enfrentam escassez de recursos e, segundo estatísticas do Departamento de Estado americano, apenas quatro pessoas foram condenadas por tráfico de pessoas em Serra Leoa entre julho de 2022 e abril de 2025. Musa, sem ter encontrado seus filhos, teve que retornar à Guiné. Sua filha reapareceu em outro local, mas sem contato com o pai, e o paradeiro do filho permanece desconhecido, mantendo a angústia do pai em aberto.

Fonte: g1.globo.com

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