O Carnaval como Palco de Resistência
Enquanto a memória popular frequentemente associa a resistência cultural à ditadura militar a nomes da Música Popular Brasileira (MPB), o papel das escolas de samba nesse período de repressão tem sido subestimado. Segundo o sociólogo Rodrigo Antonio Reduzino, essa visão ignora a profunda carga política contida nos sambas-enredo, que serviram como poderosas ferramentas de crítica e mobilização social.
Em sua tese de doutorado, “Enredos da Liberdade: o grito das Escolas de Samba pela Democracia”, defendida na Unicamp, Reduzino analisou os enredos do Grupo Especial do Rio de Janeiro durante a década de 1980, período que abrange a campanha pelas Diretas Já e o fim do regime militar. Sua pesquisa, que também embasou o documentário “Enredos da Liberdade”, demonstra que a criação e o desfile de um samba-enredo eram processos que envolviam meses de trabalho comunitário e reflexão, transformando cada apresentação em um ato político expressivo.
O Apagamento Histórico e o Racismo Estrutural
Reduzino aponta o racismo estrutural como um dos principais fatores responsáveis pelo apagamento da contribuição das escolas de samba. “Vivemos em uma sociedade historicamente estruturada pelo racismo, e uma das dimensões dele é o apagamento da palavra, da intelectualidade e da humanidade”, afirma o sociólogo. Ele ressalta que, em uma sociedade marcada pela violência contra a população negra e periférica, a repressão estatal contra as escolas de samba, muitas vezes associadas ao jogo do bicho e à vadiagem (através de leis como o Código de Vadiagem), intensificava essa violência.
Samba-enredo: Mais que Música, um Enunciado Político
O samba-enredo, para Reduzino, transcende a mera celebração carnavalesca, configurando-se como um “grande enunciado político”. Ao abordar temas como a tortura ou clamar por liberdade em plena ditadura, as escolas de samba não apenas expressavam descontentamento, mas também desafiavam o regime e fortaleciam o senso de comunidade e resistência. A associação de mecenas do jogo do bicho com as escolas de samba durante a ditadura, segundo o sociólogo, não deve ser vista como uma invenção das agremiações, mas sim como um reflexo da proximidade desses grupos com o poder público.
Desconstruindo o Mito da Democracia Racial
A pesquisa também aborda a construção do mito da democracia racial no Brasil, que, segundo Reduzino, serviu como um pilar da estrutura racista ao negar a realidade de desigualdades gritantes. Ele critica a ideia de que o samba, ao ser promovido como cultura nacional, teria contribuído para essa alienação. Reduzino contrapõe que, ao contrário, muitos artistas e intelectuais negros, incluindo figuras importantes do movimento cultural negro e das escolas de samba, foram fichados e vigiados justamente por questionarem a narrativa da democracia racial.
A Academia e a “História Oficial”
Questionado sobre a crítica de que enredos passados teriam se baseado na historiografia oficial, alienando o público, Reduzino argumenta que rotular a produção das escolas de samba como alienação é uma forma de diminuir sua relevância. Ele destaca que a “história oficial” é uma construção da elite acadêmica e do Estado, e que as escolas de samba, ao contestarem narrativas impostas, muitas vezes apresentaram uma visão crítica e popular da história. A ideia de que as escolas de samba eram adesistas à ditadura é, para ele, um estigma, uma vez que a análise de enredos da década de 1970 revela uma minoria de temas ufanistas em relação ao regime militar.
Fonte: www.brasildefato.com.br
