Ocupar é um ato político
Neste mês de março, em alusão ao Dia Internacional da Mulher e como resposta ao alarmante aumento dos índices de feminicídio no país, o movimento Massa Crítica promove uma mobilização nacional com o lema de cidades mais seguras para mulheres e crianças. Em Porto Alegre, a iniciativa se concretiza com um encontro no dia 27 de março, a partir das 18h45, no Largo Zumbi dos Palmares, na Cidade Baixa. A ação, que ocorre simultaneamente em diversas capitais, reafirma a importância de ocupar o espaço urbano como um ato político e de resistência contra a desigualdade estrutural que limita a dignidade de circulação.
A bicicleta como ferramenta de autonomia e o desafio do assédio
O movimento, historicamente engajado na luta por respeito e sustentabilidade no trânsito, utiliza o mês de março para trazer o debate de gênero para o centro das discussões. As ciclistas ressaltam: “Não estamos atrapalhando o trânsito, nós somos o trânsito”. Elas destacam que, apesar de a bicicleta representar autonomia, ela também expõe as mulheres a diversas formas de violência cotidiana. Carol Rolim, ciclista desde 2014 e que utiliza a bicicleta como principal meio de transporte, relata que a mobilidade urbana é atravessada pelo medo. Relatos de assédio e insegurança são frequentes, forçando muitas mulheres a enfrentarem sozinhas dinâmicas violentas no trânsito e no transporte público.
Urbanismo para quem? A perspectiva de gênero na mobilidade
A crítica central do movimento aponta para um planejamento urbano historicamente desenhado por e para homens, ignorando o papel fundamental das mulheres na sustentação da vida urbana, através de trajetos de cuidado e jornadas múltiplas. A memória da ciclista e pesquisadora Marina Harkot, vítima de violência no trânsito em São Paulo, serve como um lembrete de que “mobilidade também é uma questão de gênero”. As mulheres realizam trajetos mais complexos, com mais paradas, conciliando trabalho, estudo e vida doméstica, mas se deparam com “ruas perigosas, assédio, violência e infraestrutura que não considera suas realidades”. Essa exclusão é ainda mais acentuada quando se observam recortes sociais, afetando de forma desproporcional mulheres negras, periféricas, trabalhadoras, mães solo, com deficiência, indígenas, migrantes, além de mulheres trans e pessoas dissidentes de gênero.
Pelo direito de pedalar sem medo
A Massa Crítica exige um compromisso efetivo do poder público, que vá além de promessas sazonais. Entre as pautas reivindicadas estão políticas públicas de proteção eficazes, planejamento urbano com perspectiva de gênero e justiça social, e campanhas permanentes de conscientização sobre feminicídio e assédio. O movimento defende a construção de ambientes seguros em todas as esferas, da escola ao trabalho, com o objetivo de criar “cidades onde crianças possam brincar e se deslocar com autonomia, onde mulheres possam pedalar, caminhar, trabalhar e viver sem medo”. A premissa é clara: cidades seguras para mulheres e crianças são cidades melhores para todas as pessoas. Neste março, o pedal coletivo continua sendo uma ferramenta de transformação, pois, como afirma o manifesto do grupo, “ocupar as ruas também é transformar o mundo”.
Fonte: www.brasildefato.com.br
