Um Legado em Fitas VHS: A Importância da Memória Audiovisual
As lutas por justiça social e emancipação, que moldam o presente e o futuro dos movimentos populares, encontram nas experiências passadas um alicerce fundamental. No entanto, a estigmatização e as tentativas de apagamento histórico, como as enfrentadas pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), evidenciam a necessidade crucial de preservar e manter vivas as diversas formas de memória dos caminhos percorridos por essas mobilizações.
Acervo do Vídeo Popular: Resgate e Preservação em Pernambuco
Em Pernambuco, essa memória audiovisual começou a ser sistematicamente resgatada e preservada a partir de 2022 pelo Acervo do Vídeo Popular. Um coletivo de pesquisadores das áreas de cinema, comunicação e organizações da sociedade civil dedica-se a recuperar e digitalizar materiais em formatos como VHS, U-Matic e Betacam, produzidos entre as décadas de 1980 e 1990. A iniciativa foca em acervos de lutas emblemáticas, como as reivindicações do MST por reforma agrária, as batalhas por direitos femininos e reprodutivos lideradas pela SOS Corpo, e a construção da comunicação popular pela TV Viva. A escolha desses temas se deu pela percepção das lacunas de conhecimento sobre a força do “vídeo popular” naquele período de intensa produção.
A Chegada do Vídeo e a Ampliação dos Debates
“São lutas que foram movidas por agentes que são os grandes responsáveis pelo processo de reabertura democrática, justamente nesse período em que chega a tecnologia do vídeo dentro dos movimentos. Era um momento em que eles precisavam ampliar seus debates”, afirma Vinícius Andrade, coordenador de pesquisa e um dos idealizadores do coletivo. A pesquisa do Acervo do Vídeo Popular revelou uma rica diversidade de modos de produção, organização política, financiamento e parcerias entre os movimentos, com estéticas e estilos singulares, fugindo dos moldes tradicionais do cinema e assumindo um caráter coletivo.
Desafios da Preservação e um Mosaico de Lutas
O trabalho de preservação enfrenta desafios significativos, especialmente em um ambiente como o Recife, sujeito à maresia e umidade, que exigem medidas custosas de conservação material. Muitos acervos encontravam-se em estado precário, com fitas danificadas e com fungos, como relatado por Andrade. A segunda etapa do projeto ampliou o escopo para incluir acervos do Grupo Mulher Maravilha, Loucas de Pedra Lilás, Etapas Vídeo e Produções do Tempo, revelando um mosaico de lutas, incluindo o combate à estigmatização do MST na mídia empresarial e as dificuldades do SOS Corpo em promover o debate sobre direitos reprodutivos nos anos 1990.
Um Inventário Precioso para as Lutas Atuais
O Acervo do Vídeo Popular constitui um inventário valioso das formas de organização popular e da vida política em Pernambuco e no Brasil. Esse repertório de saberes, forjado ao longo de décadas de lutas em bairros, assentamentos e instituições públicas, serve como fonte de inspiração e aprendizado para as mobilizações contemporâneas. O coletivo tem disseminado esse material através de seu site, canal no YouTube e sessões especiais em comunidades e instituições culturais, como o Cinema São Luiz e a UFPE. Em um cenário onde a produção de imagens por movimentos sociais pode se tornar atrelada a plataformas corporativas com interesses distintos, a lição do vídeo popular, com sua perspectiva coletivizada, horizontalidade e debate, torna-se ainda mais relevante.
Fonte: www.brasildefato.com.br
