A obra de Saramago e a ausência de ‘grandes monstros’
Pilar del Río, presidenta da Fundação José Saramago, destacou em recente visita a São Paulo que a obra do escritor português José Saramago, laureado com o Nobel de Literatura, é marcada pela ausência de ‘grandes monstros’. Segundo ela, Saramago escrevia a partir de pessoas comuns em busca de felicidade e amor, como em ‘História de Cerco de Lisboa’, ‘O Memorial do Convento’ e ‘No Ano da Morte de Ricardo Reis’.
“Saramago não conhecia os maus de verdade para falar deles”, afirmou Del Río, explicando que, embora temas como a Inquisição possam aparecer, são sempre secundários. A essência de sua escrita reside na busca humana por felicidade, comunicação e afeto, longe de personificações de maldade extrema.
Ativismo contra o ódio e a indústria bélica
Companheira de Saramago por 24 anos, Pilar del Río dedica-se ativamente à preservação e divulgação de seu legado, combatendo o discurso de ódio, o fascismo e a indústria armamentista. A Fundação José Saramago organiza iniciativas como o passeio “O Fascismo passou por aqui” em Lisboa, que percorre locais marcados pela repressão fascista na obra do escritor.
Em seu livro “A intuição da ilha: Os dias de José Saramago em Lanzarote”, Del Río também aborda a vida do casal e divulga a Declaração de Deveres dos Direitos Humanos, um manifesto levado à ONU que enfatiza a obrigação de se cumprir os direitos humanos universalmente reconhecidos.
Democracia em risco e a importância dos deveres humanos
Durante um bate-papo no Sesc Consolação, em São Paulo, Pilar del Río expressou preocupação com o estado atual da democracia. Ela argumenta que a existência de instituições democráticas não garante a democracia em si, especialmente quando os governos não atuam em prol da felicidade do povo. A eleição de tiranos, segundo ela, é um sintoma da fragilização democrática.
A Declaração Universal dos Deveres dos Direitos Humanos, promovida pela fundação, visa conscientizar sobre a necessidade de garantir direitos fundamentais como nacionalidade, liberdade de locomoção, trabalho digno, moradia e liberdade de opção. Del Río ressalta a importância de combater a desinformação e as teorias que buscam minar esses direitos.
O legado de Saramago e o papel dos leitores
Para Pilar del Río, o legado de Saramago é mantido e defendido pelos leitores. Ela se vê como uma guardiã desse legado por ser uma leitora apaixonada de sua obra. A escritora também reiterou seu posicionamento contra a indústria armamentista, desejando recursos para o bem-estar humano, como eletrodomésticos e água potável, em detrimento de armas, cujos defensores, segundo ela, “têm graves problemas consigo mesmo”.
Fonte: www.brasildefato.com.br
