Fim de uma era: Prisão perpétua de ‘El Mayo’ sela o destino dos grandes barões do narcotráfico mexicano
Condenação de Ismael Zambada nos EUA marca o ocaso dos líderes com poder absoluto, abrindo caminho para novas estruturas criminosas no México.
A prisão perpétua de Ismael “El Mayo” Zambada, imposta por um juiz americano, não apenas encerra a trajetória de um dos mais influentes traficantes da história, mas também sinaliza o fim de um capítulo crucial na história do narcotráfico mexicano. Ao lado de Joaquín “El Chapo” Guzmán, Zambada personificou a figura do líder que, por décadas, comandou impérios de drogas com violência, astúcia e um poder quase ilimitado.
O início humilde e a ascensão meteórica
A jornada de Zambada no crime organizado começou em 1969, aos 19 anos, cultivando maconha nas montanhas de Sinaloa. O que iniciou com uma pequena colheita e uma venda modesta de US$ 400 evoluiu para o controle de rotas de cocaína da América do Sul aos Estados Unidos. Ao lado de El Chapo, ele liderou o que as autoridades americanas descreveram como “a maior organização de tráfico de drogas do mundo”, o Cartel de Sinaloa. Sua condenação à prisão perpétua, imposta pelo mesmo juiz que sentenciou El Chapo, Brian Cogan, e o confisco de US$ 15 bilhões, representam o capítulo final para essa geração de poderosos chefes do narcotráfico.
O declínio dos “grandes chefes” e a mudança de paradigma
Especialistas apontam que a queda de figuras como Zambada e Guzmán marca o desaparecimento do modelo de traficante com poder absoluto, que transitou de simples cultivador a controlador de todas as etapas do tráfico internacional, chegando a rivalizar com o próprio Estado. “É uma geração de líderes criminosos que está chegando ao fim”, afirma David Mora, analista sênior para o México do International Crisis Group. No entanto, ele ressalta que o problema do narcotráfico e da violência não desaparece, apenas se transforma e passa para outras mãos.
Novas estruturas e a fragmentação do poder
A associação entre Zambada e Guzmán deu origem ao Cartel de Sinaloa, uma organização complexa com uma estrutura vertical. Contudo, com a prisão e morte de líderes e a ascensão de novas drogas sintéticas como metanfetamina e fentanil, os cartéis se fragmentaram. A era dos grandes chefes, que exerciam um controle quase estatal em certas regiões, deu lugar a estruturas de liderança mais descentralizadas e resilientes. Ray Donovan, ex-chefe de operações da DEA, observa que o cenário atual se afasta do líder único, com organizações buscando modelos de comando mais interconectados.
Estilos contrastantes e a nova onda de violência
Enquanto El Chapo cultivava uma imagem midiática, com fugas espetaculares e declarações públicas, El Mayo Zambada sempre manteve um perfil discreto e quase fantasmagórico. Sua captura, supostamente resultado de uma armadilha envolvendo um de seus filhos, desencadeou uma guerra interna no Cartel de Sinaloa entre seus aliados e os herdeiros de Guzmán. Essa disputa interna tem mergulhado o estado de Sinaloa em uma nova onda de violência, evidenciando que, embora os rostos no topo mudem, a dinâmica do crime organizado continua a se adaptar e a persistir.
Fonte: g1.globo.com
