Cinema Pernambucano Pós-Oscar: Desafios de Fomento, Interiorização e Formação de Público para Sobrevivência e Expansão

Cinema Pernambucano Pós-Oscar: Desafios de Fomento, Interiorização e Formação de Público para Sobrevivência e Expansão

Após o reconhecimento internacional, o setor audiovisual de Pernambuco busca aprimorar políticas públicas, descentralizar a produção e fortalecer a conexão com o público para garantir sua sustentabilidade e crescimento.

O recente destaque de produções pernambucanas em circuitos internacionais, como o caso de ‘O Agente Secreto’, tem catapultado o cinema de Pernambuco para um novo patamar de visibilidade. Esse sucesso, fruto de décadas de investimento em políticas públicas e da consolidação de um ecossistema audiovisual robusto, levanta a questão sobre os próximos passos para a expansão e a sustentabilidade do setor.

Funcultura: Um Pilar em Evolução e Desafios de Financiamento

O Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura), desde 2007, tem sido um motor crucial para o audiovisual no estado, com mecanismos pioneiros em fomento. No entanto, especialistas apontam que os valores atuais dos editais, como o de R$ 11 milhões lançado em janeiro, estão aquém do potencial e do histórico do fundo, que já chegou a R$ 20 milhões com aportes federais. A Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) afirma que o valor mínimo previsto é de R$ 32 milhões, com R$ 9,28 milhões destinados ao audiovisual, e um aporte adicional de R$ 7 milhões em 2025. Apesar do reajuste no teto de projetos de longa-metragem para R$ 1 milhão, a percepção é de que o fomento precisa ser mais robusto.

Outro ponto de atenção é o processo seletivo de projetos. Mannu Costa, realizadora cultural e professora da UFPE, lamenta o enfraquecimento na qualificação e fluxo de trabalho dos pareceristas, que antes contavam com maior especificidade e tempo para debates. A Fundarpe, por sua vez, garante que a seleção de pareceristas segue critérios técnicos e que o julgamento é acompanhado por instâncias deliberativas e técnicas, buscando assegurar a isonomia.

Estruturação do Mercado e a Promessa das Film Commissions

Além do Funcultura, o ecossistema pernambucano conta com outros editais como o SIC da Prefeitura do Recife e recursos de leis emergenciais. Contudo, a professora Mannu Costa ressalta a necessidade de o Estado atuar em outras frentes, como na captação de negócios, fomento à estruturação de empresas locais e promoção dos negócios regionais. Nesse sentido, as film commissions surgem como ferramentas globais de atração de produções. Recife já conta com a Recife Film Comission, atuando na centralização de autorizações, formação e apoio à distribuição. No âmbito estadual, a criação da Pernambuco Film Comission está em fase de escutas e contratação de consultoria técnica, sem datas previstas para implementação.

Interiorização: Democratizando o Acesso e a Produção Cinematográfica

A força do cinema pernambucano também se expande para o interior do estado. A Rede Interiorana de Produtores, Técnicos e Artistas de Pernambuco (Ripa) articula mais de 400 profissionais na luta pela descentralização de recursos e produções. Djaelton Quirino, gestor da Ripa e produtor em Arcoverde, testemunha a evolução da qualidade técnica e o surgimento de longas-metragens com equipes inteiramente do interior. Contudo, os desafios persistem na formação profissional, no acesso a recursos e na superação de preconceitos regionais, onde profissionais locais muitas vezes são preteridos em favor de equipes da Região Metropolitana.

Apesar de conquistas como a aprovação de aproximadamente 50% dos projetos do Funcultura vindos do interior, a disparidade nos valores investidos é notória. Quirino defende uma ampliação do conceito de ‘cinema pernambucano’ para abarcar as diversas identidades culturais e realidades regionais do estado.

Formação de Público e Preservação da Memória Audiovisual

A sustentabilidade da cadeia produtiva do cinema passa, invariavelmente, pela formação de público e pela valorização da memória audiovisual. Salas públicas de exibição como o Cinema São Luiz e o Teatro do Parque desempenham um papel fundamental nesse processo, embora enfrentem desafios na circulação de filmes de repertório. O curador e pesquisador Luis Fernando Moura critica a programação de algumas salas por se restringir a filmes ditos ‘clássicos’ apenas via cineclubes ou parcerias externas, perdendo a oportunidade de construir uma narrativa histórica a partir do olhar local.

Atualmente, as salas da Fundação Joaquim Nabuco e o Cinema da UFPE funcionam regularmente, enquanto o Cinema São Luiz finaliza obras com previsão para maio ou junho de 2026. O Cineteatro do Parque apresenta exibições esporádicas e problemas em seu equipamento de projeção. A proposta de um Centro de Referência do Audiovisual no Cinema São Luiz, integrado ao Museu da Imagem e do Som de Pernambuco (Mispe), visa fortalecer a preservação, difusão e formação, criando um sistema articulado para o audiovisual pernambucano.

A Fundarpe destaca que a programação do Cinema São Luiz busca um equilíbrio entre o cinema contemporâneo pernambucano e brasileiro, clássicos mundiais e filmes internacionais, além de exibições regulares de cineclubes e mostras temáticas. A digitalização de parte do acervo do Mispe e o plano de instalação do Centro de Referência indicam um caminho promissor para a consolidação da memória e a difusão do cinema em Pernambuco.

Fonte: www.brasildefato.com.br

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