Julho das Pretas: Conheça 5 Mulheres Negras que Guardam Saberes Ancestrais em Terreiros de SP

Mulheres Negras Preservam Memória e Saberes Ancestrais em Terreiros de São Paulo

O mês de julho, conhecido como Julho das Pretas, celebra o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, uma data que ressalta a importância da memória, da resistência e do cuidado protagonizados por mulheres negras. Nesse contexto, a série documental “Terreiros Urbanos”, do Brasil de Fato, lança luz sobre cinco mulheres que, à frente de terreiros em diversas regiões do estado de São Paulo, mantêm vivos saberes ancestrais e promovem transformações sociais.

A série acompanha lideranças da capital, do interior e do litoral paulista, revelando como os terreiros transcendem suas funções religiosas, atuando como espaços vitais de acolhimento, formação, produção cultural e organização comunitária. Entre as personalidades retratadas estão Mãe Alessandra Ribeiro (Campinas), Mãe Luciana Bispo (zona sul de SP), Mãe Claudia Rosa (Valinhos), Mãe Neide Ribeiro (Ribeirão Preto) e a ekedi Eloiza Lourenço (Ilhabela).

Mãe Luciana Bispo: Cuidado e Resistência na Zona Sul de SP

Em São Paulo, Mãe Luciana Bispo segue o legado de sua mãe, Aparecida Bispo, no Ilê Obá Asé Ogodo e no Lar Maria Sininha. Assistente social e ialorixá, ela enfatiza o papel histórico dos quilombos e terreiros como espaços de cuidado e acolhimento, combatendo o racismo religioso. “Eu vou olhando para a história desse país e diria que os espaços de maior cuidado, sem nenhuma discriminação, são os quilombos e os terreiros”, afirma. O Lar Maria Sininha desenvolve atividades para crianças e adolescentes, ampliando o acesso à cultura e à garantia de direitos, consolidando a visão do terreiro como um local de proteção e não de demonização.

Mãe Claudia Rosa: Fé e Luta Contra a Intolerância em Valinhos

Mãe Claudia Rosa, em Valinhos, lidera o Ilê Asé Ojù Oyá. Sua trajetória é marcada pela resiliência, após o antigo terreiro em Guaianases ter sido invadido três vezes. A mudança para Valinhos foi uma estratégia para proteger a comunidade e o sagrado. “Nossa decisão de sair do centro foi para que a gente pudesse preservar o nosso sagrado. Porque, sendo uma mulher negra, lésbica, periférica, de luta, que não se cala, que faz a participação social, eu sempre tive represálias por ter essa força”, relata. Além das práticas religiosas, o terreiro realiza ações sociais, como distribuição de alimentos e máscaras durante a pandemia, e promove eventos culturais como o Samba Muketu, sempre defendendo a liberdade de culto.

Mãe Neide Ribeiro: Preservação Cultural e Mobilização em Ribeirão Preto

No interior, Mãe Neide Ribeiro transformou o Egbe Awo Ase Iya Mesan Orun e o Centro Cultural Orunmilá em polos de preservação da cultura afro-brasileira em Ribeirão Preto. O centro oferece atividades como capoeira, dança afro e biblioteca temática, além de um estúdio de gravação. Mãe Neide também foi fundamental na articulação de leis em benefício da população negra. “Eu nem considero uma religião, mas uma tradição, porque o Orixá nunca se desligou da gente”, explica. A criação do Afoxé Omó Orúnmilá visa desmistificar figuras como Exu e celebrar a cultura iorubá nas ruas.

Ekedi Eloiza Lourenço: Memória Afro-Brasileira no Litoral Paulista

Em Ilhabela, a ekedi Eloiza Lourenço, nascida no Quilombo da Caçandoca, une o trabalho no terreiro Ilé Àsé Omo Guian Ati Oya e Aldeia Caboclo Tupinambá à preservação da memória afro-brasileira. Ela integra a Associação do Movimento Afrodescendente de Ilhabela e atua na Diretoria de Patrimônio Histórico e Cultural. Eloiza destaca a Festa de Iemanjá como um patrimônio cultural e turístico, essencial para o fortalecimento da identidade negra. “O chamariz é sempre a praia, porém, hoje em dia, a gente sabe que as pessoas estão procurando outras praias também. Então, não dá mais para fazer venda turística de praia. Precisa de conteúdo”, defende. Ela ressalta o papel dos terreiros como espaços de acolhimento para mães solo e crianças em situação de vulnerabilidade.

Mãe Alessandra Ribeiro: Ancestralidade e Compromisso em Campinas

A série “Terreiros Urbanos” também apresenta Mãe Alessandra Ribeiro, em Campinas. Ela relaciona a ancestralidade da Umbanda ao Jongo Dito Ribeiro e à Casa de Cultura Fazenda Roseira. Ocupar uma antiga fazenda escravocrata é, para ela, um ato político e espiritual de grande significado. “Para a gente ter a oportunidade de contar a história a partir daqui é muito simbólico”, afirma. Mãe Alessandra defende que a fé exige responsabilidade e disciplina, sendo uma força material e real na construção cotidiana.

A série “Terreiros Urbanos” está disponível no canal do Brasil de Fato no YouTube.

Fonte: www.brasildefato.com.br

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *