Narciso: O Filme Que Usa Mito Grego Para Debater Identidade Negra e Rejeição no Brasil

Um Desejo e a Busca por Pertencimento

Uma bola de basquete mágica, um desejo e uma pergunta que ecoa na infância de muitas crianças negras no Brasil: o que significa pertencer? É com essa provocação que o filme Narciso, dirigido por Jeferson De, chega aos cinemas. A trama acompanha Narciso (Arthur Ferreira), um menino que sofre com a dor da rejeição ao ser devolvido por pais adotivos na véspera de seu aniversário. Em um lar temporário, ele pede a um gênio que o conceda o sonho de ter uma família rica, mas com uma condição: nunca mais poderá ver seu próprio reflexo.

Subvertendo o Mito para Falar do Brasil

O longa utiliza a premissa do mito grego para propor uma reflexão social urgente sobre a infância negra no Brasil. Jeferson De explica que o objetivo foi “aproveitar o gancho do mito grego, só que subvertendo toda aquela história do menino com característica eurocêntrica para falar das nossas questões, basicamente da infância negra no Brasil”. O diretor ressalta que a obra aborda o desafio da aceitação enfrentado pela criança negra, que muitas vezes não encontra referências de si mesma ou de sua família na mídia, sentindo-se invisível ou rejeitada.

O Reflexo do Racismo Estrutural

A subversão do mito grego é o ponto central da narrativa. Enquanto o Narciso original se apaixona pela própria beleza, o filme apresenta a realidade de quem não consegue se enxergar com afeto devido ao racismo estrutural. “Um garoto negro da idade do Narciso no Brasil é um garoto que, ao ver a própria imagem, não gosta do que vê. Meu Narciso acha feio o que está no espelho porque tudo o que ele vê no seu entorno de positivo e virtuoso não é preto de pele escura, e tudo o que ele vê de negativo na grande mídia está ligado às pessoas pretas”, explica o diretor. Essa jornada de autodescoberta é enriquecida por um elenco que inclui Faiska Alves, Diego Francisco, Fernanda Nobre, Juliana Alves e Marcelo Serrado.

Ancestralidade e Humanidade em Cena

Um dos grandes destaques é Seu Jorge, que interpreta o gênio, não como uma figura convencional, mas como uma representação de Oxóssi, que “aponta a sua flecha certeira para os caminhos”. Para o diretor, essa figura funciona como um “conselheiro, um irmão mais velho e uma ponte com a nossa ancestralidade”. O filme também explora a complexidade das relações humanas através de Carmem (Ju Colombo), a figura materna que personifica a dureza e a humanidade, reivindicando o direito à sinceridade e à humanidade mesmo diante das feridas.

Reconstrução e Reconhecimento

Ao chegar às salas de cinema, Narciso se afasta de narrativas que reduzem a experiência negra apenas à carência. O filme aposta em um movimento de reconstrução baseado na fé, que o diretor define como “o acreditar no amanhã e acreditar que essa dor que eu sinto hoje vai passar”. Mais do que um debate sobre identidade, a obra propõe um deslocamento de olhar necessário: a transição entre o simples ato de se ver e o aprendizado contínuo de, finalmente, se reconhecer e reivindicar presença no mundo.

Fonte: www.brasildefato.com.br

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