Iniciativa revitaliza propriedades e fortalece agricultura familiar em regiões atingidas por desastres naturais.
Famílias agricultoras dos municípios de Paraíso do Sul e Agudo, no Rio Grande do Sul, dão um passo significativo na recuperação de suas propriedades após os impactos devastadores das enchentes e enxurradas de 2023 e 2024. Através do projeto Quintais Produtivos Agroflorestais, executado pelo Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ) com o apoio da Fundação Banco do Brasil, uma nova etapa de reconstrução e fortalecimento da agricultura familiar teve início com a distribuição de mudas de árvores frutíferas e nativas.
A iniciativa visa não apenas a recuperação ambiental e a produção de alimentos saudáveis, mas também o fortalecimento dos sistemas agroflorestais, combinando o conhecimento ancestral com práticas sustentáveis. Antes da entrega das mudas, as famílias já haviam recebido insumos essenciais para a recuperação da fertilidade dos solos, como adubos orgânicos, pó de rocha e sementes de adubação verde.
Diversificação e Sustentabilidade: A Base dos Novos Quintais
Cada uma das 750 famílias beneficiadas receberá 50 mudas de espécies variadas, incluindo laranjeiras, bergamoteiras, limoeiros, bananeiras, figueiras, abacateiros, jabuticabeiras, além de erva-mate, canjerana, grápia, timbaúva e outras espécies nativas com potencial alimentar, ecológico e madeireiro. A seleção priorizou espécies que unem produção de alimentos, geração de renda, recuperação ambiental e adaptação às mudanças climáticas. As famílias também receberão sementes de feijão preto, kits de hortaliças e equipamentos para o manejo dos sistemas produtivos, como roçadeira, pulverizador costal, tesoura de poda, serrote, facão e pá de corte.
O projeto busca replicar a dinâmica da natureza, onde as plantas se auxiliam em um processo de sucessão, ocupando diferentes estratos – emergente, alto, médio, baixo e rasteiro – para aproveitar melhor a luminosidade e os nutrientes. “Uma planta auxilia a outra em um processo de sucessão, ocupando diferentes espaços e aproveitando melhor a luminosidade. Além disso, temos plantas adubadoras que vão fornecer matéria orgânica e nutrientes para todo o sistema”, explica Felipe Huff, um dos agricultores beneficiados.
Saberes Ancestrais e Resposta à Crise Climática
A agrofloresta, embora apresentada como um conceito moderno, é a continuidade de conhecimentos milenares dos povos originários. Saruê Vezaro, agricultora de Agudo e participante do projeto, destaca a importância de resgatar e valorizar esses saberes. “A gente fala muito em agrofloresta como se fosse um conceito novo, mas não é. Representa uma tecnologia social ancestral. Os povos indígenas faziam agrofloresta muito antes de nós. O que estamos fazendo é dar continuidade a esses saberes e aprender com eles”, afirma.
O projeto, que se estende até dezembro de 2026, é visto como uma resposta concreta do campesinato à crise climática. Ao diversificar a produção, aumentar a cobertura vegetal e melhorar a capacidade dos solos de reter água e nutrientes, os quintais agroflorestais ajudam a proteger o solo, ampliar a biodiversidade e reduzir a vulnerabilidade das famílias diante de eventos climáticos extremos. “O campesinato tem a missão de produzir alimento saudável, cuidar do meio ambiente e contribuir para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. Esses quintais ajudam a fortalecer essa missão e a levar alimentos de qualidade para as famílias do campo e também para os trabalhadores da cidade”, ressalta Rosiéle Lüdke, articuladora da atividade.
Recuperação e Resiliência: Um Futuro Mais Verde para o RS
A iniciativa prioriza agricultores familiares com Cadastro da Agricultura Familiar (CAF) ativo e que possuam área mínima de 1.000 m² para a implantação dos sistemas. Além das regiões Centro/Serra, o cronograma prevê a expansão para as regiões Noroeste e Celeiro do RS nas próximas semanas. A expectativa é que até meados de julho todas as famílias beneficiadas recebam os materiais necessários para a implementação dos seus quintais produtivos agroflorestais.
Com a entrega de mudas, insumos e equipamentos, e o acompanhamento técnico previsto, o projeto Quintais Agroflorestais aposta na agroecologia como caminho para reconstruir a capacidade produtiva das propriedades rurais, fortalecer a soberania alimentar das comunidades camponesas e garantir um futuro mais resiliente e produtivo para o Rio Grande do Sul.
Fonte: www.brasildefato.com.br
