Agroecologia Transforma Cacau Amazônico em Chocolate Premium e Sustentável, Gerando Renda e Preservando a Floresta
Do manejo florestal à produção de chocolates premiados, o Pará lidera a revolução do cacau fino no Brasil, impulsionada por práticas agroecológicas e pelo protagonismo dos produtores.
Nativo da Amazônia, o cacau, fruto que deu origem a chocolates mundialmente reconhecidos, vive um renascimento no Brasil, especialmente no estado do Pará. Longe de ser apenas uma commodity, o cacau amazônico está sendo reinventado através da agroecologia, resultando em produtos finos, sustentáveis e com alto valor agregado. Essa mudança de paradigma coloca o produtor e a qualidade da amêndoa no centro da cadeia produtiva, impulsionando a economia local e a conservação da floresta.
O Cacau Brasileiro: De Commodity a Protagonista de Chocolates Premiados
Após um período de declínio causado por pragas no início do século XX, o Brasil, hoje sexto maior produtor mundial de cacau, tem visto o estado do Pará assumir a vanguarda na produção de um cacau fino e sustentável. A estratégia tem sido clara: deixar de tratar o cacau como matéria-prima genérica e focar no desenvolvimento de produtos derivados, como chocolates de alta qualidade. Marcos Lessa, CEO do Chocolat Festival, destaca a importância dessa virada: “É preciso repensar que esse produtor e o cacau, por si, ele é o protagonista diante de uma cadeia em que o chocolate era protagonista, mas é o cacau que é.” A busca pela qualidade da amêndoa já garante reconhecimento internacional e um mercado consumidor atento.
Agroecologia na Ilha do Combu: Manejo Sustentável e Chocolates de Referência
Na Ilha do Combu, a poucos minutos de barco de Belém, famílias têm revitalizado a região através da produção de cacau nativo e orgânico, distanciando-se do uso de agrotóxicos. Dona Nena, proprietária da chocolateria Filha do Combu, é um exemplo de sucesso. Sua produção, baseada no manejo sustentável da floresta, resulta em brigadeiros aclamados como os melhores do Brasil. “Nós nunca tiramos a floresta só para plantar cacau. A gente tem que ter algumas árvores que a gente precise para entrar mais no cacau, porque a nossa produção é baixa em função disso. Então, o nosso cacau fica debaixo das árvores”, explica Dona Nena, ressaltando que o cacau necessita de sombra, mas também de luminosidade, um equilíbrio mantido pelo sistema agroflorestal.
Reforma Agrária e o Fortalecimento do Produtor de Cacau
As terras onde Dona Nena cultiva seu cacau são resultado da reforma agrária, com titulação concedida pelo Incra entre 2006 e 2009. A posse da terra é vista como fundamental para o desenvolvimento do produtor. “É muito importante que o produtor tenha realmente posse do seu local de trabalho, do seu território onde ele desenvolve trabalho. Porque, com isso, ele pode ter esse acesso. Ele está com toda a documentação dele correta, ele pode chegar no banco, buscar assistência técnica para que ele possa melhorar a sua produção”, defende Dona Nena. Esse acesso facilita não apenas a melhoria da produção, mas também o beneficiamento e a comercialização.
Sistemas Agroflorestais Integrados: Cacau, Açaí e Inovação em Castanhal
Em Castanhal, região metropolitana de Belém, a produção de cacau tem se associado à de açaí, criando sistemas agroflorestais (SAFs) que resultam em chocolates finos e saudáveis. Na fazenda Monte Carlo, Osni de Azevedo Ramos exemplifica essa integração, que também envolve pecuária. “A nossa produção hoje é um sistema agroflorestal, uma SAF integrada à pecuária. Então hoje nós temos plantio de cacau consorciado com açaí”, relata Ramos. A fazenda inovou ao transformar mais de 1.100 toneladas de resíduos bovinos, antes descartados, em adubo orgânico, que hoje responde por mais de 70% da fertilização do plantio.
O programa Bem Viver, que aborda temas como a agroecologia no cacau brasileiro, é exibido semanalmente no YouTube do Brasil de Fato e em diversas emissoras de TV e rádio pelo país.
Fonte: www.brasildefato.com.br
