O Sofrimento Silencioso: Crianças em Gaza Perdem a Fala Devido a Traumático Conflito
Psicoterapeuta infantil relata o impacto devastador da violência extrema na capacidade de comunicação e desenvolvimento neurológico de crianças palestinas, com casos alarmantes de trauma e perda da fala.
A violência incessante em Gaza tem gerado um fenômeno preocupante: um número crescente de crianças está perdendo a capacidade de falar como uma resposta neurológica ao estresse extremo. A psicoterapeuta infantil Katrin Brubakk, da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), descreve a situação como um “sofrimento silencioso”, onde mais de um milhão de crianças em Gaza sofrem traumas graves que afetam fisicamente o desenvolvimento de seus cérebros.
A Resposta Neurológica ao Trauma Extremo
Brubakk explica que, diante de um cenário de violência, destruição e medo constante, algumas crianças reagem com um bloqueio completo. “É como se seu sistema nervoso dissesse: ‘Não aguento mais’. E a forma de se proteger é retraindo-se. A linguagem faz parte disso”, afirma. Para essas crianças, parar de falar é um mecanismo de defesa, uma forma de não interagir com um mundo que lhes inflige dor. Não se trata de uma escolha consciente, mas de uma resposta neurológica ao estresse e ao trauma extremos, vivenciados de forma contínua há anos.
Casos que Ilustram a Gravidade da Situação
Um exemplo tocante é o de Adam, um menino de 5 anos que, após presenciar a morte de seu pai e ser gravemente ferido em um ataque, parou de falar e de comer. Sua alegria e vivacidade deram lugar a um isolamento profundo. Outro caso é o de Mona, de 6 anos, que sofreu queimaduras graves em todo o corpo após um bombardeio em sua casa. Através de brincadeiras, como soprar bolhas de sabão, Brubakk busca acalmar o sistema nervoso dessas crianças e ajudá-las a processar seus traumas. As bolhas de sabão, descritas como “bolhas de esperança”, auxiliam na transição do estado de estresse para um estado mais calmo, além de ensinarem a importância da respiração lenta e profunda, que acalma o sistema nervoso.
Consequências a Longo Prazo e a Urgência por Paz
As sequelas desses traumas podem ser devastadoras e permanentes. Brubakk alerta que a interrupção do desenvolvimento da linguagem e das interações sociais pode afetar fisicamente o cérebro das crianças. Estudos indicam que a amígdala, responsável pelas emoções intensas, aumenta de tamanho, enquanto o córtex pré-frontal, crucial para o planejamento e a regulação emocional, pode se apresentar subdesenvolvido. “Lesões cognitivas da guerra”, invisíveis, podem acompanhar essas crianças por toda a vida se a situação de estresse extremo persistir. A psicoterapeuta enfatiza que o nível de destruição e trauma em Gaza é incomparável a outras zonas de conflito onde atuou, reforçando a necessidade urgente de pressão internacional pela paz para evitar a destruição de toda uma geração.
Fonte: g1.globo.com
